quarta-feira, 28 de julho de 2010

A cama vazia era enorme
Entre os lençóis e fronhas, imagine,
Cabia o corpo,
Os pensamentos,
Sentimentos
E medos.
Todos.
Um por um.

domingo, 18 de julho de 2010

Sucata

no limiar do cansaço
do universo, um todo
o que se quer inteiro
e se tem a metade

exagero ao saber
que não é o certo
é pedaço completo
com hora pra acabar

migalhas
restos
sucata

domingo, 11 de julho de 2010

Despedida

Partiu o cadarço

Rompeu o laço

Quebrou promessas


Zombou do sentido

Zoou com o ouvido

E a musica, repito,

Não se ausentou


E o pensador

Não teve amparo

E nem o preparo

Pra ser avaliado

Sobre o temor


Com outro sapato

De pé trocado

O olhar encantado

Por aquele senhor.


De nariz marcado

E sorriso serrado.

Com a água nos lábios

Nasce o rancor

terça-feira, 29 de junho de 2010

Boomerangue

Na calada da noite
chega mudo, mole
De dengo
De cheiro

Parece que vem sempre
Parece que vai ficar
Mas vai

Sempre.

Aí volta.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Pra sambar e rimar

Se eu subir, você desce
A ladeira do samba
Na cadência de bamba
Com a sacola na mão

Se eu subir, você desce
De cima da cama
Com o corpo em chama
E estilhaços no chão

Se eu chegar, você sai
Sai de dentro de casa
Com o vento na cara
E o poder da razão

Se eu pedir você dá
Um abraço pecado
Um encontro marcado
Com cheiro de mato
Segurando a paixão

terça-feira, 1 de junho de 2010

Clarear



Quando eu tenho medo, eu tenho medo mesmo. Sou daquelas que fica tremendo, suando, que o corpo trava todo numa situação de "perigo". Quer dizer, nem sempre. Às vezes eu corro. Corro muito! E é incrível como esta é uma das pouquíssimas coisas que me fazem correr de verdade, feito gente: medo.

É, eu não sei correr. Como assim não sabe correr? Não sabendo, ora! Pareço uma idiota correndo...toda torta, sem coordenação e pesada. Até arrisco uma corridinha pra me exercitar, mas só. Não me peça pra ir correndo até ali ou pra correr na direção de alguém. Não, ogrigada. Eu prefiro andar muito rápido.

Bem, voltando ao medo, são tantas as coisas que me assustam que eu não sei nem contar. A mais, digamos assim, conhecida de todas (e por todos) é meu pânico enlouquecedor de ficar sozinha no escuro. Eu acho estranho ouvir os relatos de quem adora ficar no escuro, que ajuda a pensar na vida, que é tranquilo...há quem vá além da razão e que ainda arrisque dizer que no escuro a gente consegue se ver melhor, por dentro.

No meu caso, se o que eu vejo e sinto no escuro for o que sou por dentro, DEUS ME LIVRE! TENHA MEDO DE MIM! Só se eu for irritante, desconfortável e terrivelmente assustadora. Porque é exatamente assim que me sinto nas trevas: EM TREVAS.

E eu não estaria aqui falando sobre medo se não fosse a noite de ontem. Ter mais de um pesadelo na mesma noite deveria ser proibido por lei. E o pior é que todos envolviam dois dos meus temores que mais deveriam permanecer intocados: solidão e escuridão.

A cada vez que eu acordava e me dava conta de que aquilo não era verdade, sentia um alívio. Rezei pra não sonhar de novo e não sonhei. Ao menos não o mesmo sonho, mas outros tão ruins quanto o primeiro. Mudava o lugar, o momento, a situação e as pessoas envolvidas, mas tudo sempre girava em torno de abandono e eu acabava sozinha no escuro sempre. Sempre.

Oxe! Eu vou é clarear meu dia.

sábado, 22 de maio de 2010

Once: Making a Modern Day Musical


Gravado em apenas 17 dias, Once – título traduzido para Apenas uma Vez - (2006) é um filme diferente e, também por isso, cativou o público e a crítica do cinema no mundo. A sua aparência de documentário, com uso manual de câmera, mistura ficção e realidade e faz com que a pessoa que o assiste entre na história. O filme coloca o espectador numa posição de voyeur, pois a sensação é que estamos, nós, espectadores, presentes na cena, filmando o que acontece.

O filme é uma produção independente do diretor John Carney e teve como set de filmagens as ruas da cidade de Dublin, na Irlanda. A escolha do elenco foi totalmente ligada à estética pretendida para o filme: ênfase e destaque para a trilha sonora em detrimento do roteiro em si. Para isso, foram convidados, para estrelar Once, músicos profissionais, e não atores. Glen Hansard e Markéta Inglová, os protagonistas, são músicos e amigos há muitos anos na vida real, o que favoreceu ainda mais o clima de espontaneidade pretendido por Carney para a obra.

Uma curiosidade importante do filme é o fato de que os personagens não tem nomes. A identificação do espectador com a história é toda vivida através das experiências dos personagens e sentida através das canções que ilustram o tempo todo a história deles. Não é preciso nomes. Entender “Ele” e “Ela” é o suficiente para acompanhar a trama do início ao fim.

O enredo de Once é simples e direto. “Ele” é um músico de rua, que trabalha também com seu pai numa oficina que conserta aspiradores de pó. “Ela” é uma imigrante Tcheca que vende flores nas mesmas ruas de Dublin e toca piano como hobby. Os dois se conhecem por acaso e a paixão pela música é o que os aproxima, levando-os a viver muitas e inesquecíveis experiências juntos.

O acompanhamento musical é algo intrínseco ao cinema, mesmo desde a época do cinema mudo. Ainda quando a audição de falas nas obras cinematográficas era algo inexistente e, até visto como improvável, a música já estava presente, muitas vezes com apresentações ao vivo nos cines-teatro.

A música aguça o sentimento de quem assiste. Ajuda a passar a emoção pretendida por atores e diretores dos filmes. Essa dicotomia entre som e imagem é algo antigo e enraizado na história do cinema. Hoje, a trilha sonora tem sua importância mais que reconhecida e, muitas vezes, está ligada à essência da obra, faz parte da sua marca. Música e imagem passam a remeter um ao outro, ficam ligados na memória do espectador.

“A necessária dicotomia entre som e imagem parece hoje, uma realidade inquestionável e o mais ferrenho, acostumado a tudo questionar, poderá encontrar exemplo nisso no cinema mudo. Desde os primórdios da história do cinema, desde as primeiras projeções dos filmes de Meliès no subsolo de um bar parisiense, tanto público como realizadores sentiram a necessidade de um acompanhamento sonoro (musical) para as imagens, cujo silêncio parecia insuportável, apesar de sua natureza muda ser de uma grande arte dramática, infelizmente hoje perdida.” (BURCH, NOEL: 1969)

No caso de Once, esta dicotomia apresenta-se de maneira muito significativa. Som e imagem, aqui, são inseparáveis. Once não tem só a música como principal tema e pilar do seu enredo, mas, esta, é um elemento fundamental para a construção do filme em si. O diretor, John Carney, afirma que o processo de construção de Once foi contrário ao da maioria das produções cinematográficas. As músicas não foram escolhidas apenas para acompanhar ou ilustrar as cenas, mas elas são o objeto principal das mesmas.

Em Once, as músicas é que guiam a história, elas são o centro das atenções. É curioso perceber como é o enredo que fica em segundo plano no filme; é ele quem acompanha a trilha sonora e não o inverso.

Once possui trilha sonora basicamente diegética, ou seja, “a que não só os espectadores, mas também os protagonistas do filme estão ouvindo” (MÁXIMO, João. 2003. Pág.78). A maior parte dos momentos em que a música aparece no filme, são as personagens que a estão tocando e cantando. Nos outros momentos, o ruído fica por conta dos sons da rua, das vozes. Os diálogos recebem acompanhamento musical quase nulo no filme.

A trilha sonora de Once é original, mais um fruto da parceria musical entre os artistas (e protagonistas do filme) Glen Hansard e Markéta Inglová. Foram eles que compuseram as músicas especialmente para o filme e, também, são eles mesmos que as executam (cantam e tocam).

Esta é uma realidade quem vem contrastar com uma tendência presente no cinema atual. As trilhas sonoras, hoje, são também uma estratégia comercial de venda, tanto do filme, quanto de cd´s com as músicas presentes na obra. Para isso, muitos filmes se utilizam de músicas já conhecidas pelo público e a trilha sonora acaba tornando-se uma imensa colcha de retalhos de canções diversas que podem ou não interferir ativamente na história e, muitas delas, nem chegam a ser percebidas pelo espectador durante o filme.

Pensando no dinheiro que pode ser ganho paralelamente com a venda dos discos, os produtores tem estimulado, quando não exigido, que os compositores enxertem suas trilhas sonoras de canções estranhas a elas. São sucessos, quase sempre de artistas pop, sem qualquer ligação com a história ou com os personagens. Atuam como iscas para o comprador do disco, o qual muitas vezes nem nota que, ou o sucesso é ouvido no filme por breves segundos, ou simplesmente não é ouvido. Quer dizer, está no disco, mas não no filme. (MÁXIMO, João. 2003. Pág.81)

Levando em consideração a importância essencial da trilha sonora para a cadência e compreensão do enredo, bem como acontece nos musicais, pode-se admitir, em partes, que Once seja algo próximo de um musical ou, como o próprio diretor e roteirista do filme o denomina, “Uma maneira moderna de fazer musical”.

Enfim, Once quebra com diversas regras e paradigmas estéticos do cinema ao se tratar de uma história de ficção, com características visuais marcantes do gênero documentário (escolha de ângulos, câmera, iluminação) e por ter a música como foco e principal tema (típico dos musicais).

Um musical moderno é uma maneira simples e direta de traduzir Once. O filme é, na verdade, uma grande miscelânea de conceitos que, na medida certa, resultaram numa bela história de amor, amizade e música.