quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

O compasso do peito

Que rufem os tambores!
Eis o coração que bate descompassado
atrás do afinado batuque do outro.
Eis o coração exposto aos zique-zagues
na avenida dos sonhos e pesadelos.

Que entrem os músicos!
Começa agora a canção
do fim de mim, da nossa história.
Era uma canção pequena e sem valor,
mas era o maior dos meus tesouros.

Que mudem a música!
A gente aprende a dançar
ritmos diferentes no decorrer da vida.
Eu aprendi a cantar com você
e agora és tu quem desafina meus acordes,
quem me faz perder o fôlego.

Que aumentem os agudos!
E assim apaga-se a minha voz grave,
o meu sussurro sonoro aos teus ouvidos.
O sussurro que é só teu, meu eu.

Ah! Que deixem tocar nas cordas do meu peito
essa incerteza de não mais amar você!
Eu agora não consigo ouvir
a música que guia o sabor das coisas.

Que encerrem a canção
e não hajam aplausos.
É fim de show,
que abram as cortinas!
Acabou-se nós enfim.
Eu comecei, então.

domingo, 13 de janeiro de 2008

Joana efêmera

Quieta, no canto preferido do quarto, Joana refletia sobre a efemeridade das coisas. As pernas grudadas ao peito, envolvidas pelos braços longos e desengonçados da menina. Pensava que, por mais que as pessoas buscassem eternidade, ela não existia. "Tudo passa".
É certo que se tudo fosse eternizado a vida tonar-se-ia um transtorno incontrolável. Imagine nunca superar a morte de alguém, um amor perdido, um rancor. Bem como, achava Joana, a felicidade constante seria um tédio.
Agora, juntando tudo numa coisa só, Joana entendeu que, viver-se-ia todos esses sentimentos juntos, ninguém escapa de momentos felizes e de tormento. Todos eternos! As pessoas viveriam antíteses enlouquecedoras todos os dias, a toda hora.
Joana sentiu-se arrepiar.
Por um instante os joelhos pulsavam com o coração da menina que batia depressa e compassadamente. Tudo junto? Tudo pra sempre? Ela teve medo.
Ao mesmo passo que a eternidade não viria a calhar, perceber que as coisas não duram pra sempre as torna um pouco mais fúteis, talvez. É prático demais, enquanto a dor toma conta dos sonhos, pensar que um dia vai passar. A certeza de que "vai passar" transforma o sofrer em perda de tempo. Pra quê ficar sofrendo se vai passar? Amanhã eu não vou nem mais lembrar-me da angústia e isso não mais fará sentido?
E ficar feliz? Pra quê? Amanhã acontece uma desgraça e a felicidade, doce felicidade, passa. Acaba. Pronto.
Joana novamente sentiu-se arrepiar.
A mãe entrou no quarto rompendo bruscamente o raciocínio. As pernas esticadas, longe do peito, agora caminhavam em direção à porta. Era hora de ir. Joana sai pela porta de casa e vai viver a vida, os sentimentos que a confundiram tanto por aquelas horas em que manteve-se no seu canto, no seu quarto.
Ela não mais pensou no assunto. Passou.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Ano Novo

Deixo aqui um breve comentário acerca do que fui um dia. Sim, breve. O que leva à conclusão que não fui muita coisa. Tolo engano. Fui muito mais ainda do que qualquer um jamais foi. É uma pena que fui mais planos que conquistas, mas as conquistas não foram banais. Lutei muito, mas me rendi quando não devia fazê-lo. Sofri danos irreparáveis. Meus filhos? Estes sim sofreram até mais do que eu. Estes colheram os frutos das besteiras que plantei, do mal que semeei a mim mesma.
Hoje, digo que fui porque não vejo mais razão de dizer que sou alguma coisa. Se me chamam por futuro, significa que um dia posso até voltar a ser, mas ainda não. Se me chamassem presente, aí sim, eu diria de peito aberto que sou, que vivo, que faço.
Mas hoje é Ano Novo. Esperança, é o que dizem este dia trazer aos corações desamparados.
Ano Novo não é vida nova, os problemas atravessam o Reveillon, as festas, os brindes e te acompanham por onde fores, mas a sensação de ter uma nova chance, de poder recomeçar é o que motiva as pessoas a buscarem melhorar o que não deu certo no ano que passou.
Eu rezo para o espírito de renovação preencher deste sentimento os corações dos meus filhos que cansaram de lutar por mim. Eu peço a Deus que dê forças a meus filhos para que lutem por si próprios.

Feliz Ano Novo.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Pout-Pourri

Eu tava triste, tristinho
E a tristeza tem sempre uma esperança de um dia não ser mais triste, não.
Eu tava só, sozinho
Deixo as mágoas com o meu passado
Tava mais bobo que banda de rock
A melhor banda de todos os tempos da última semana
Mas ontem eu recebi um telegrama
Palavras. Apenas palavras pequenas, palavras ao vento.
Era você de Aracajú ou do Alabama
Teresópolis, Pirinópolis...
Dizendo: nego, sinta-se feliz!
A alegria é a melhor coisa que existe
Porque, no mundo, tem alguém que diz que muito te ama
Só pra ver a luz do teu sorriso se abrir
Oh, mama, quero ser seu papá!
Vem pra roda da malemolência.

[Zeca Baleiro, Vinícius de Moraes, Mateus Lopes, Titãs, Cássia Eller, P.O Box, Gilberto Gil e Céu]

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Outra vontade

A vontade, quando excede o limite de ser,
acaba por tornar-se desejo involuntário, desatino.
A vontade, quando excede a racionalidade,
acaba por transgredir o sentimento à maneira mais primitiva.
A vontade move moinhos, ergue histórias e destrói vidas.
É do homem a vontade.
É do homem à vontade.
O destino da vontade é morrer.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

E eu...

Eu que sinto esse vazio no peito
que só eu sei o doer que causa.
Eu que sinto que não terei
tão cedo aquilo que almejo
com a alma, com o corpo e o olhos.

Eu que vejo tão longe o desejo.
Eu que sinto de perto o calor,
o frio, o suor e o tremor.

Eu que vejo os abraços gastos e os beijos
recheados de um tesão que vem do estômago
sem respeito, sem pudor.

Eu que sou um círcular quadrado
que não se encaixa em lugar algum
nessa brincadeira de encaixar.

Eu que não sei o motivo de gostar
e menos ainda, o motivo de não querer gostar.
E gostar mais.

Eu que vagueio na beira das águas
e sinto o sal no rosto que não vem do mar.
As espumas brancas que afundam meus pés,
elas pesam.

E eu que não sinto mais. E eu que não vejo mais.
E eu que só quero estar onde você já não pode.
Eu que não sei nem mais o gosto,
o gozo e a direção.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Perdoai, eles não sabem o quem fazem.

Quando Jesus disse isso, eu acho que ele não enxergava a maldade que agora eu vejo. Eu só não digo que sou idiota porque acho que sou maior que tudo isso (mesmo sendo um cotoco de gente, como disse um amigo muito especial). Na verdade, eu sou é muito boa, modéstia à parte. Sou boa porque fui eu mesma por todo esse tempo, porque fui honesta comigo mesma, porque amei com pureza, porque me entreguei sem interesses, porque fui mulher, fui amiga. Eu não me arrependo de nada, já que o que eu vivi foi verdade. A recíproca, quando não existe, não impede que alguma coisa aconteça de fato. Mas eu acreditei quando não devia, amei quem não mereceu. É por isso que hoje percebo as coisas todas que ficaram pra trás, os detalhes que no momento exato não percebi. Agora eu monto esse quebra-cabeças e é mágico ver como as peças, todinhas, se encaixam perfeitamente bem. Cada gesto, cada palavra, cada dica que a vida dava e eu não via. Os olhos estavam fechados pelo coração pulsando freneticamente em vão, por nada. Enquanto isso a vida preparava o terreno para alguma coisa melhor, nem que seja para a solidão. A pergunta é se seria a solidão, realmente, melhor que uma companhia desarmoniosa. Eu acredito que sim, mas não a solidão completa. Estar totalmente sozinho te consome as entranhas, enlouquece, magoa e é exatamente isso que faz a companhia de quem não presta.
Não prestou pra mim e não vai prestar pra ninguém. A história está manchada para sempre e as boas lembranças são vistas como uma mistura de nojo e vergonha. Eu tenho vergonha de ser ingênua, mas não burra. Burra seria se voltasse a acreditar e eu não vou errar comigo outra vez. A descrença salva das imperfeições dos outros que não têm o comprometimento com o seu bem estar. Eu me quero bem.