terça-feira, 1 de junho de 2010

Clarear



Quando eu tenho medo, eu tenho medo mesmo. Sou daquelas que fica tremendo, suando, que o corpo trava todo numa situação de "perigo". Quer dizer, nem sempre. Às vezes eu corro. Corro muito! E é incrível como esta é uma das pouquíssimas coisas que me fazem correr de verdade, feito gente: medo.

É, eu não sei correr. Como assim não sabe correr? Não sabendo, ora! Pareço uma idiota correndo...toda torta, sem coordenação e pesada. Até arrisco uma corridinha pra me exercitar, mas só. Não me peça pra ir correndo até ali ou pra correr na direção de alguém. Não, ogrigada. Eu prefiro andar muito rápido.

Bem, voltando ao medo, são tantas as coisas que me assustam que eu não sei nem contar. A mais, digamos assim, conhecida de todas (e por todos) é meu pânico enlouquecedor de ficar sozinha no escuro. Eu acho estranho ouvir os relatos de quem adora ficar no escuro, que ajuda a pensar na vida, que é tranquilo...há quem vá além da razão e que ainda arrisque dizer que no escuro a gente consegue se ver melhor, por dentro.

No meu caso, se o que eu vejo e sinto no escuro for o que sou por dentro, DEUS ME LIVRE! TENHA MEDO DE MIM! Só se eu for irritante, desconfortável e terrivelmente assustadora. Porque é exatamente assim que me sinto nas trevas: EM TREVAS.

E eu não estaria aqui falando sobre medo se não fosse a noite de ontem. Ter mais de um pesadelo na mesma noite deveria ser proibido por lei. E o pior é que todos envolviam dois dos meus temores que mais deveriam permanecer intocados: solidão e escuridão.

A cada vez que eu acordava e me dava conta de que aquilo não era verdade, sentia um alívio. Rezei pra não sonhar de novo e não sonhei. Ao menos não o mesmo sonho, mas outros tão ruins quanto o primeiro. Mudava o lugar, o momento, a situação e as pessoas envolvidas, mas tudo sempre girava em torno de abandono e eu acabava sozinha no escuro sempre. Sempre.

Oxe! Eu vou é clarear meu dia.

sábado, 22 de maio de 2010

Once: Making a Modern Day Musical


Gravado em apenas 17 dias, Once – título traduzido para Apenas uma Vez - (2006) é um filme diferente e, também por isso, cativou o público e a crítica do cinema no mundo. A sua aparência de documentário, com uso manual de câmera, mistura ficção e realidade e faz com que a pessoa que o assiste entre na história. O filme coloca o espectador numa posição de voyeur, pois a sensação é que estamos, nós, espectadores, presentes na cena, filmando o que acontece.

O filme é uma produção independente do diretor John Carney e teve como set de filmagens as ruas da cidade de Dublin, na Irlanda. A escolha do elenco foi totalmente ligada à estética pretendida para o filme: ênfase e destaque para a trilha sonora em detrimento do roteiro em si. Para isso, foram convidados, para estrelar Once, músicos profissionais, e não atores. Glen Hansard e Markéta Inglová, os protagonistas, são músicos e amigos há muitos anos na vida real, o que favoreceu ainda mais o clima de espontaneidade pretendido por Carney para a obra.

Uma curiosidade importante do filme é o fato de que os personagens não tem nomes. A identificação do espectador com a história é toda vivida através das experiências dos personagens e sentida através das canções que ilustram o tempo todo a história deles. Não é preciso nomes. Entender “Ele” e “Ela” é o suficiente para acompanhar a trama do início ao fim.

O enredo de Once é simples e direto. “Ele” é um músico de rua, que trabalha também com seu pai numa oficina que conserta aspiradores de pó. “Ela” é uma imigrante Tcheca que vende flores nas mesmas ruas de Dublin e toca piano como hobby. Os dois se conhecem por acaso e a paixão pela música é o que os aproxima, levando-os a viver muitas e inesquecíveis experiências juntos.

O acompanhamento musical é algo intrínseco ao cinema, mesmo desde a época do cinema mudo. Ainda quando a audição de falas nas obras cinematográficas era algo inexistente e, até visto como improvável, a música já estava presente, muitas vezes com apresentações ao vivo nos cines-teatro.

A música aguça o sentimento de quem assiste. Ajuda a passar a emoção pretendida por atores e diretores dos filmes. Essa dicotomia entre som e imagem é algo antigo e enraizado na história do cinema. Hoje, a trilha sonora tem sua importância mais que reconhecida e, muitas vezes, está ligada à essência da obra, faz parte da sua marca. Música e imagem passam a remeter um ao outro, ficam ligados na memória do espectador.

“A necessária dicotomia entre som e imagem parece hoje, uma realidade inquestionável e o mais ferrenho, acostumado a tudo questionar, poderá encontrar exemplo nisso no cinema mudo. Desde os primórdios da história do cinema, desde as primeiras projeções dos filmes de Meliès no subsolo de um bar parisiense, tanto público como realizadores sentiram a necessidade de um acompanhamento sonoro (musical) para as imagens, cujo silêncio parecia insuportável, apesar de sua natureza muda ser de uma grande arte dramática, infelizmente hoje perdida.” (BURCH, NOEL: 1969)

No caso de Once, esta dicotomia apresenta-se de maneira muito significativa. Som e imagem, aqui, são inseparáveis. Once não tem só a música como principal tema e pilar do seu enredo, mas, esta, é um elemento fundamental para a construção do filme em si. O diretor, John Carney, afirma que o processo de construção de Once foi contrário ao da maioria das produções cinematográficas. As músicas não foram escolhidas apenas para acompanhar ou ilustrar as cenas, mas elas são o objeto principal das mesmas.

Em Once, as músicas é que guiam a história, elas são o centro das atenções. É curioso perceber como é o enredo que fica em segundo plano no filme; é ele quem acompanha a trilha sonora e não o inverso.

Once possui trilha sonora basicamente diegética, ou seja, “a que não só os espectadores, mas também os protagonistas do filme estão ouvindo” (MÁXIMO, João. 2003. Pág.78). A maior parte dos momentos em que a música aparece no filme, são as personagens que a estão tocando e cantando. Nos outros momentos, o ruído fica por conta dos sons da rua, das vozes. Os diálogos recebem acompanhamento musical quase nulo no filme.

A trilha sonora de Once é original, mais um fruto da parceria musical entre os artistas (e protagonistas do filme) Glen Hansard e Markéta Inglová. Foram eles que compuseram as músicas especialmente para o filme e, também, são eles mesmos que as executam (cantam e tocam).

Esta é uma realidade quem vem contrastar com uma tendência presente no cinema atual. As trilhas sonoras, hoje, são também uma estratégia comercial de venda, tanto do filme, quanto de cd´s com as músicas presentes na obra. Para isso, muitos filmes se utilizam de músicas já conhecidas pelo público e a trilha sonora acaba tornando-se uma imensa colcha de retalhos de canções diversas que podem ou não interferir ativamente na história e, muitas delas, nem chegam a ser percebidas pelo espectador durante o filme.

Pensando no dinheiro que pode ser ganho paralelamente com a venda dos discos, os produtores tem estimulado, quando não exigido, que os compositores enxertem suas trilhas sonoras de canções estranhas a elas. São sucessos, quase sempre de artistas pop, sem qualquer ligação com a história ou com os personagens. Atuam como iscas para o comprador do disco, o qual muitas vezes nem nota que, ou o sucesso é ouvido no filme por breves segundos, ou simplesmente não é ouvido. Quer dizer, está no disco, mas não no filme. (MÁXIMO, João. 2003. Pág.81)

Levando em consideração a importância essencial da trilha sonora para a cadência e compreensão do enredo, bem como acontece nos musicais, pode-se admitir, em partes, que Once seja algo próximo de um musical ou, como o próprio diretor e roteirista do filme o denomina, “Uma maneira moderna de fazer musical”.

Enfim, Once quebra com diversas regras e paradigmas estéticos do cinema ao se tratar de uma história de ficção, com características visuais marcantes do gênero documentário (escolha de ângulos, câmera, iluminação) e por ter a música como foco e principal tema (típico dos musicais).

Um musical moderno é uma maneira simples e direta de traduzir Once. O filme é, na verdade, uma grande miscelânea de conceitos que, na medida certa, resultaram numa bela história de amor, amizade e música.




terça-feira, 18 de maio de 2010

Inveja

A cama está vazia.
A colcha no lugar,
Os travesseiros lisos.

Nenhuma dobra no lençol,
Nenhuma mancha,
Nenhum cheiro.
Ninguém.

O barulho será
sempre
na casa do vizinho.

sábado, 15 de maio de 2010

Salve Salvador!


O carro quebrou. Está fazendo um barulho sem tamanho e, pior, praticamente não sai do lugar. Até que eu vinha conseguindo fazê-lo andar, mesmo bebendo litros e litros de combustível, inclusive, hoje de manhã, ele ainda pegava no tranco.

Acordei cedo para ir à Cultura Inglesa fazer a parte que faltava do meu primeiro simulado para o FCE. Uma merda. A pior prova que já fiz em toda a minha vida. Juro! E, pra piorar, a moça da biblioteca ainda me sabotou sem maldade. Só depois que passei 40 minutos de loucura tentando entender o que as pessoas falavam no cd (estava fazendo a prova do Listening), ao mesmo tempo que tinha que ler as questões, marcar as opções corretas e/ou completar as frases é que descobri que, entre uma questão e outra, eu deveria ter um micro intervalo para ler as questões antes de ouvir o maldito cd. Ok. já era tarde. Perdi meu tempo e minha paciência.

Mas, voltando ao assunto do carro, no segundo round do meu sábado de trabalho duro, ele resolveu me deixar na mão de verdade. Não havia como sair com ele naquele estado. A pé, chegaria mais rápido ao shopping Iguatemi, que era meu destino.

Mesmo fazendo Vigilantes do Peso e estando deveras empolgada com a idéia de fazer exercícios físicos, optei pelo transporte público para ir ao encontro de Mari no shopping. Foi aí que a bagaceira começou.

O calor, pra variar, estava insuportável na capital baiana. O ônibus não demorou a passar e estava (graças, senhor!) vazio. Cheguei à Estação Transbordo rapidinho, rapidinho.

Dado o primeiro passo na estação, que loucura! Um milhão de pessoas circulando e falando ao mesmo tempo. Minha atenção divida entre capas de celular, perfumes embalados como se fossem queijo, roupas (sim! tinha uma senhora vendendo uma saia de bolinhas que era uma coisa!), cabos, fios, bonés, cd´s, dvd´s, doces, amendoins...eu não sabia a quem olhar, agradecer ou se saia correndo dali.

COMO SE FOSSE POSSÍVEL CORRER NA PASSARELA DO IGUATEMI AO MEIO DIA!

É gente de tudo quanto é tipo, cor, estilo. Passou por mim uma mulher chorando com tanto afinco que fiquei uma parte penalizada e outra bem muito curiosa pra saber o motivo daquele sofrimento todo. “Se for mal de amor, minha filha, vem cá que eu te entendo!” Não, eu não disse isso a ela, mas pensei.

Pensei com dificuldade, sim, porque é muito difícil pensar qualquer coisa boa, que tenha a ver com solidariedade e compaixão ouvindo um pagode horroroso num volume absurdo no seu ouvido. E pior, como se não bastasse o ruído da música em si, ainda tinha uma moça me fazendo o favor de acentuar, desafinadamente, cada detalhe daquela poesia no meu ouvido.

A vontade de calá-la só não era maior que a de fazer o mesmo (e mais uma sessão toda especial de tortura) com os rapazotes desprovidos de bom senso que se acham no direito de me dizer cantadas baratas num tom super intimista e pegar no meu cabelo. Mas é muita ousadia... FALA, MAS NÃO PEGA! Aliás, não fale nada não, na moral. Que raiva, que nojo.

Só me veio na cabeça um dia, há uns 6 anos, que, saindo do supermercado, passou um caminhão por mim na rua e, incrédula e sem ação, assisti o homem que estava no carona colocar metade do corpo para fora da janela e gritar, sem nenhum pudor, apontando para esta que vos escreve:
- RABUUUUUUUUUUUUUUUUDAAAAAA!!!

Salve Salvador! Eu não mereço tanto.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

suspiro de alívio e tensão
em pensar
e entender
o motivo de eu
ter tanto sal nos olhos

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Sacode a poeira!

Com as reviravoltas que a vida tem dado, acho que é chegada a hora de varrer as teias de aranha daqui. Talvez porque eu tenha voltado a ter o que contar. Talvez porque eu, simplesmente, tenha (re)descoberto a inspiração em novas experiências, momentos e sons.

Enfim, estou de volta ou, pelo menos, pretendo estar.

sábado, 21 de junho de 2008

O céu sobre os ombros

Há nuvens cinzas entre as almas
e raios no lugar das palavras.
Há cicatrizes frias onde existia dor
e ainda dói.

O rancor vira saudade
e depois volta a ser rancor
A saudade...
Ah! Saudade!

A vida há de mostrar-lhe
que há verdade em meu pranto
e que as palavras saem puras
do peito de quem chora a dor
em meio a tantos risos.
Por que sorris?

São sonoras gargalhadas
contrastando com os soluços das lágrimas.
São muitas lágrimas
escondidas no sorriso.

Ainda assim canto a angústia
de ter que me sentir limpa
mesmo que em meio a toda a sujeira
que fantasias em nós.
Mas nosso cheiro não se deixa abalar com o tempo.

O senhor das contas, o tempo.
Contando os impulsos, somando os anseios,
tirando as feridas.
O senhor das curas, o tempo.

E, por mais que eu acredite
na força que temos um no outro,
é preciso entender
que o horizonte fica menor
quando se tem o céu sobre os ombros.